segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

AO LADO TEU, SENHOR

 ( julho 2014)

Ao lado teu, Senhor, todo o barulho cessa e eu me vejo no mais completo silêncio!

Ao lado teu, senhor, minhas algemas se abrem, caem por terra, e eu me vejo livre como os pássaros!

Ao lado teu, Senhor, eu me sinto como numa alta montanha, a receber o frescor da brisa na face, contemplando as mais belas paisagens!

Ao lado teu, Senhor, eu me sinto forte e santo, e todos os meus temores e inseguranças somem como por encanto!

Ao lado teu, Senhor, posso agora caminhar tranquilo, sem me preocupar com o destino, porque vós me levais pela mão!

Ao lado teu, Senhor, quero passar o restante de minha vida, e toda a eternidade!


sábado, 7 de janeiro de 2017

EPIFANIA DO SENHOR


EPIFANIA DO SENHOR 06/02/2013

ISAÍAS 60,1-6

SL 71- "AS NAÇÕES DE TODA A TERRA HÃO DE ADORAR-VOS, Ó SENHOR!

EFÉSIOS 3,2-3a. 5-6

MATEUS 2,1-12



A festa de hoje refere-se à manifestação de Jesus Cristo a todos os povos pagãos (=nações) simbolizados pelos três magos. Os três presentes que eles deram são altamente simbólicos: Incenso: Jesus é Deus; Ouro: Jesus é rei; Mirra: Jesus é homem.

Essa realidade se repete em nós pelo Batismo, mas com uma diferença: Jesus se torna homem, mas nós nos tornamos "divinos" = filhos de Deus.

As últimas estatísticas mostram que somos três bilhões de cristãos num mundo de sete bilhões de pessoas. Os quatro bilhões que não conhecem ou não seguem a Cristo, são esses nossos "reis" magos atuais. E como os três do evangelho de hoje, eles também querem nos ofereceer seus dons, suas qualidades, algumas virtudes que talvez ainda não temos. Se nós, cristãos, aceitássemos ouvir o que eles têm a dizer, talvez prestassem mais atenção no que nós temos a dizer.

A grande diferença entre nós, cristãos e eles, não-cristãos, é que els prticam (e às vezes selvagemente) o que pregam; nós, como dizia Jesus aos judeus, não movemos, muitas vezes, nem uma só unha para praticar o que pregamos.

O padre Carlos de Foucauld, agora beatificado, foi viver sua vida entre os tuaregues, o povo mais atrasado da terra. Ele nunca pregou uma só palavra: sua pregação era a ação. Dizia sempre: "Devemos gritar o evangelho com a nossa vida!".

Na primeira leitura, Isaías diz que Jerusalém era a luz que norteava os outros povos; no evangelho, Mateus diz que Jesus é essa luz que agtrai a todos, sem distinção. S. Paulo, na segunda leitura, diz que o Evangelho, praticado, é a luz visível que vai atrair aos demais para a luz invisível, que é Cristo.

Seja a nossa vida de tal modo agradável a Deus, que possa também iluminar aos que ainda vivem nas trevas, para que encontrem Jesus, o caminho da luz, e a própria luz!

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

SONHOS

"NUNCA DESISTA DOS SEUS SONHOS! SE ELE ACABOU NUMA PADARIA, PROCURE EM OUTRA"!
(Aparício Torelly)

Os sonhos são muitas vezes levados a sério como premonições. Não é bem assim. O sonho é um trabalho conjunto do consciente e do inconsciente. O Inconsciente teima em colocar na sua mente coisas passadas, frustrações, remorsos, intimidades. O Super-Ego, que corresponde a tudo o que você aprendeu e assimilou como certo e errado (simplificando a definição), procura disfarçar o sonho por meio de símbolos, a fim de que você possa dormir tranquilo. 

Desse modo, se você está amando, por exemplo, a namorada de seu amigo, você nunca vai sonhar que está com ela numa conversa intima. O Super-Ego vai fazer você sonhar que seu amigo está viajando, ou mesmo morreu, e você está consolando a namorada dele. Assim você não se sente culpado e pode continuar o sono em paz. 

Nos pesadelos acontece diferentemente: o Super-Ego acorda você a fim de que, por exemplo, você não morra do coração.

Uma escada, para o Joãozinho, pode significar alegria ou lembrança de sua avó, pois ele a usava para "roubar" biscoitos que ela escondia na prateleira de cima. Para o Pedrinho, pode significar tristeza e perigo, pois ele caiu da escada, um dia, e quebrou o braço. Os sonhos de ambos podem ter sido com escadas, mas, como você pode ver, têm significados diferentes.

Pouquíssimos sonhos são presságios, e para pouquíssimas pessoas. Minha mãe era uma delas. Ela sempre sonhava com coisas que ia acontecer, e realmente aconteciam. Mas, como disse, são raros. 

Para evitar pesadelos, evite dormir de barriga cheia!

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

1- VIDA PRISIONAL- INTRODUÇÃO E ÍNDICE




A alegria não está nos objetos, mas no fundo do coração; podemos senti-la no mais rico palácio ou na mais triste prisão”. (Mônica Stocker, parafraseando Sta. Teresinha).

INTRODUÇÃO

Não importa muito, na vida espiritual, onde estamos vivendo, mas como estamos vivendo. A vida na prisão pode ser encarada como qualquer outra, desde que os presos se conservem num caminho de conversão, “estar” preso sem realmente “ser” um preso; viver em liberdade de espírito, mesmo algemado.

O que interessa, de fato, é todos chegarmos à vida eterna, no paraíso, e um preso pode levar vantagem nisso, se sua vida for bem vivida. As privações, a falta de liberdade física, podem ajudar o preso a conservar-se no caminho desejado por Deus, de conversão contínua e sincera.

Infelizmente são poucos os que aproveitam o tempo de prisão como a maravilhosa “hora de Deus” em suas vidas.

 Muitos de nossos leitores gostariam talvez de saber como se vive numa prisão. Conversei com alguns presos, em nossa visita da pastoral carcerária, também com um meu amigo preso, e eles me disseram o que exponho a seguir:

  ESTAR SEM SER

Estar preso sem ser preso é algo muito difícil, porque a convivência com o negativo tende a influenciar as atitudes daquele que quer conservar seu espírito livre. Para isso é preciso evitar falar gírias, praticar a camaradagem, não deixar a oração, a meditação e a leitura de bons livros e da bíblia diariamente, buscar a moderação nas palavras e nas conversas (isto é muito importante!), aplicar-se ao estudo, não participar das conversas negativas e nocivas, não denunciar a ninguém, não ficar reclamando de tudo, e outras coisas mais.

Um dia o preso sairá da prisão e terá que voltar à vida na sociedade. A vida prisional ficará para trás. Se ele viver como preso lá dentro, se isso o influenciar, acabará vivendo como preso aqui fora também.

Ser cristão é algo para a vida toda e em qualquer lugar em que vivamos. Jesus disse que os seus discípulos estavam no mundo, mas não eram do mundo (João 17,15-16).

Estamos no mundo, utilizamo-nos das coisas do mundo, mas não devemos nos apegar ao mundo: nossa verdadeira vida está no céu, onde viveremos a felicidade e a liberdade eternas!


O ouro é um metal precioso de primeira grandeza porque, embora se misture com os outros metais e impurezas, conserva-se desligado deles, não entra em combinação com nenhum deles. No cadinho, ele entra misturado com impurezas e com outros materiais, e sai do outro lado limpinho, sem mistura alguma.

2- TIPOS DE PRISÕES, DE REGIME, COMPORTAMENTO


  TIPOS DE PRISÕES

Há vários tipos de prisões: com e sem facções, mais e menos abastadas, mas e menos lotadas, de crimes em geral e crimes contra os costumes (prisões de “artigo”) etc.

Há pessoas que acham a prisão necessária para a punição dos que cometeram crimes, e há pessoas que acreditam na recuperação de pelo menos uma boa porcentagem de criminosos, e isso se daria numa prisão bem orientada, com recursos humanos.

Na verdade, o que acontece é que muitos por si mesmos, sem ajuda externa, se conscientizam do mal praticado; outros, levados pela prática religiosa dentro dos presídios; mas há outros ainda que saem da prisão pior do que quando entraram, por não haver um acompanhamento psicológico, nem pedagógico, nem sociológico. Por falar nisso, a maioria dos presos é de religião evangélica. Nas penitenciárias, o número de católicos é muito reduzido, na proporção de 900 crentes para cada 80 católicos. Precisaríamos pensar um pouco nisso!

Para se resolver o problema deveria haver um acompanhamento pelo menos mínimo (nem isso há) psicológico, pedagógico, sociológico, a fim de que os atuais presos se conscientizem do que fizeram, mas também saibam e tenham conhecimento de como mudarem de vida, recomeçarem uma vida nova.

A maioria dos que estão na prisão nunca receberam o carinho paterno ou materno, não viveram numa família bem estruturada. Isso faz muita diferença na fase adulta!

Quando o Pai celeste combinou com o Filho a data em que ele nasceria aqui na terra, escolheu escrupulosamente uma família santa, em que Jesus pudesse crescer de modo sadio e bem estruturado. Deus sabe muito bem como isso é importante! Como teria sido a educação humana de Jesus se ele nascesse numa família como a de muitos que vivem nas prisões?

Quem nunca recebeu amor, nunca saberá amar. Vejo que qualquer ser humano, mesmo antes de nascer, já recebeu amor, pois foi eternamente amado por Deus. Confira Jeremias 1,4: “Antes que te formasses no seio de sua mãe, eu já te amei”. Entretanto, muitos nascem vivem e morrem sem saberem disso! Se soubéssemos como somos amados por Deus, nunca pecaríamos! Veja Jeremias 31,3: “Eu te amei com um amor eterno!”

O REGIME FECHADO E O SEMIABERTO

Há uma diferença entre os que estão no regime fechado e os do semiaberto. No regime fechado eles acordam antes das 6. Às 6 horas há a primeira contagem, o café e em seguida alguns saem para o trabalho (dentro do recinto prisional), outros para o estudo, na escola interna, outro grupo que faz trabalhos manuais e um último grupo que não faz nada o dia todo, a não ser dormir e ver televisão.

O almoço é servido às onze horas. Há três horas diárias de banho de sol, ou de manhã ou à tarde, conforme o número de pavilhões.

Às cinco horas há o jantar, mas a contagem e o fechamento das celas acontecem às 16 horas. Ou seja: os presos ficam fora da cela apenas três horas por dia, a não ser os que trabalham nas firmas internas, nos jardins, nas hortas. Às 18 horas há outra contagem, e uma última, às 21 horas.

No semiaberto as celas se abrem às 6 horas e se fecham às 21 horas, com três contagens. Mas isso varia de penitenciária para penitenciária.  Em algumas delas, o semiaberto é mais aberto do que em outras. Mas em todas há a obrigação do trabalho para o semiaberto.

No semiaberto nem todos trabalham fora: muitos trabalham internamente, na faxina ou no apoio ao pessoal do escritório ou das portarias.

Aos sábados e aos domingos há a visita dos familiares. No semiaberto é aos domingos. As famílias dos presos muitas vezes sofrem mais do que eles com as consequências de sua prisão. De fato, só pelo motivo de visitá-lo já é um sofrimento: longa fila no sol forte, revista total (é preciso ficar nu ou nua), certas humilhações quando a visita toma alguma atitude que não é permitida, muitas vezes por simplicidade ou desconhecimento etc.

Outro sofrimento é dos filhos, que acham que os pais não gostam mais deles, pois “saíram” de casa.

Um determinado preso tinha um filho de três anos. Era um problema a hora de o filho ir embora, no final da visita: ele chorava, se agarrava ao pai... O mesmo menino, na rua, quando via as grades das janelas e portões, dizia à mãe, apontando: “papai”... Que tristeza!

Meu amigo preso conta que o rapaz, depois da despedida do filho, sentou-se ao lado dele, com o rosto entre as mãos. O meu amigo, então, lhe falou: “pode chorar, não tenha vergonha! Eles não merecem isso”!

COBRANÇAS NO COMPORTAMENTO

Há muitas “cobranças” no comportamento dos presos, e elas são feitas pelos próprios presos: não são forçadas pelos funcionários. Eis algumas:

1- Não se admite roubos dentro de uma prisão. Quem faz isso (são chamados “ratos de mocó”) é severamente punido pelos próprios colegas. Um dos únicos lugares do mundo ocidental com menor índice de roubos é na prisão! E a punição é mais rigorosa que a daqui de fora.

2- Banhos diários obrigatórios. O que cuida da barraca (tipo de armário onde se coloca a alimentação diária) tem que tomar banho antes de pegar a alimentação servida na janela da porta da cela. A prioridade do chuveiro é sempre dele.

3- É proibido tomar o alimento sem camisa, ou fumando, ou tossindo, ou assuando o nariz, ou fazendo qualquer dessas coisas anti-higiênicas. Também é proibido ir ao banheiro durante as refeições.

4- A limpeza da cela, do banheiro e do WC é caprichada. Não há outro lugar no mundo, afora os hospitais (e olhe lá!) em que se preze mais a higiene que nas celas de uma prisão.

5- A faxina das celas (=barracos) é feita pelos próprios presos, um dia de cada um. Quem não quiser fazer a faxina, paga a outro para fazê-la: o pagamento é, geralmente, um maço de cigarros de determinada marca, nos dias de semana, e dois nas vésperas dos dias de visitas. Há variação da marca de penitenciária para penitenciária.

6- A moeda dentro das penitenciárias, como já perceberam, é o maço de cigarros. Alguns pagam para lavar certas peças de seu vestuário que não querem que sejam lavadas na lavanderia. Custa na média de 4 a 6 peças por maço de cigarros, variando de lugar para lugar. Alguns alimentos também são comercializados pelos que recebem visitas. Os que não recebem muitas vezes fazem esses “bicos” para poderem comprar produtos para a higiene pessoal, já que muitas penitenciárias não os fornecem. Por exemplo: quatro rolos de papel higiênico podem custar um maço de cigarros, dependendo da marca, ou um maço de marcas mais caras e um maço de marcas mais baratas.

Todos podem fazer compras mensalmente: é distribuída uma lista com determinados itens (nem tudo pode ser comprado) e com determinada quantia máxima permitida. O pagamento da compra é feito automaticamente: os responsáveis descontam a quantia gasta no pecúlio que os presos possuem, fruto do trabalho ou de depósitos de familiares.

7 – É dada muita ênfase nas visitas: não podem ser encaradas, ou mesmo olhadas pelos outros. Se se encontram nos corredores ou nas escadas, os que não têm nada a ver com aquela visita viram o rosto para a parede, a não ser que se trate de homens.
Não se admitem bermudas curtas nem camisetas sem mangas nos dias de visitas, nem calças tipo “moletom” ou apertadas. Muito pudor nas vestes.
Só podem entrar nas prisões a mãe, o pai, os irmãos, os filhos e a esposa.

8- As cartas são censuradas, mas livres: podem ser escritas quantas quiserem. Só são barradas as que contenham assuntos não permitidos, como pornografia.

9- A alimentação é feita pelos próprios presos encarregados disso. Não há funcionários trabalhando em quaisquer das atividades pertinentes a manutenção e conservação do prédio. Eles apenas coordenam o trabalho dos próprios presos. Acho isso muito bom, pois dá oportunidade de trabalho para eles.

10- É proibido o usode garfos, facas ou pratos de metal: tudo é de plástico.

11- Os pipas são bilhetes que os presos colocam em caixas próprias para isso, para pedirem atendimento médico ou judiciário. São colocados em caixas separadas.

12- Os homossexuais assumidos moram em celas próprias. Quando isso não ocorre, geralmente seus talheres e copos são separados dos demais. Mas há algumas diferenças entre as prisões nesse assunto.

13- Os barbeiros são gratuitos, mas os presos dão uma pequena contribuição voluntária, de 1 a 2 maços de cigarros.
14- As festas das mães, crianças, Natal, são amplamente festejadas com bandeirinhas, frases, comes e bebes permitidos e presentes para as crianças. A alimentação um pouco melhor nessas ocasiões é financiada pela casa, mas os enfeites e presentes são conseguidos pelos presos com coleta de maços de cigarros. Em algumas prisões isso foi extinto e a festa se resume numa alimentação melhor.

15- Cada cela pode ter um televisor e um rádio.

16- Algumas penitenciárias têm superlotação, com vários presos dormindo em colchões estendidos no chão, chamado de “praia”. Quando há muitos, chegam a dormir cinco em três colchões, de um modo a que chamam “valete”: os pés de um ficam na altura da cabeça do outro. As camas são beliches duplos ou triplos, de alvenaria.


17- A assistência judiciária dos presos é muito precária. Os que não podem pagar um advogado sofrem muitos atrasos nos processos e nos benefícios. No final de 2011 havia 21mil pessoas presas ilegalmente, com penas vencidas ou tempo de condenação já cumprido. A força tarefa libertou-os, mas quantos ainda não continuaram nessa situação!

3- GÍRIAS, BARULHO E CONVERSA


Há muitas. Aqui transcrevo algumas:

ANTENADO:- ligado em conversas alheias.
AGRADECE: usam sempre a terceira pessoa do singular e não a terceira. Também em outras palavras, como “entendeu”.

BAGULHO:- qualquer objeto ou coisa.
BASEADO, BALA: trouxinha de maconha.
BOIOLA:- homossexual.
BOI:- banheiro.
BONDE:- transferência ou qualquer viagem para fora da prisão. Por extensão, qualquer coisa que se joga fora: “Dê bonde naquele arroz porque está azedo...”
BOLINHO PODRE:- um grupo de pessoas que se juntam para combinarem uma agressão ou alguma atitude contra uma pessoa, ou mesmo para falar mal de alguém.
BANDECO:- a marmita do almoço/jantar.
BERROU A PLACA, CAIU A PRANCHA:- quando alguém é desmascarado.
BABA OVO:- bajulador.
BADAROSCA:- algo sem nenhum valor.
BARATO LOUCO:- briga ou lugar tenso
BATER SUJEIRA:- negar algo a alguém, “enrolando-o” com desculpas.
BICO SUJO:- pessoa em quem não se confia.
BIC:- isqueiro.
BATE CINZA:- cinzeiro improvisado.
BARRACA:- prateleira onde se guardam as coisas comuns, como canecas, colheres, o pão e o café que a casa serve.
BARRACO:- a cela.
BATER A NAVE:- algo não dar certo.
BRISA:- estar maconhado. Ex: Você estragou a minha brisa.

CAIR A CASA:-descobrir os podres de alguém ou cessar algum privilégio.
CANARINHO, LÍNGUA PRETA:- alcagueta.
CAPIVARA:- a ficha processual do preso.
CASTELAR: planejar alguma coisa ou olhar para alguém com algum desejo.

DAR UM SALVE:-chamar alguém ou castigar, dependendo do caso.
DAR UM ROLÊ:- caminhar no pátio ou, por extensão, procurar canal na tevê.
DEU MILHO (ou deu mi):- quando a pessoa vacilou ou fez algo que não deveria ter feito.
DAR UM TIRO, DAR UMA MULTA:- pedir algo a alguém.

ESQUEMA:- ser utilizado por outra pessoa.
ENXUZAR:- atormentar, encher a paciência do outro.
ESTAR DE BODE:- estar dormindo.

FUNÇA:- o funcionário, a funcionária.
FAZER LUVA:- lavar as mãos.
FUSILAR:- falar mal de; apontar um erro.
FICAR DE QUEBRADA:- isolar-se.

GAIADA, JEGA, BURRA, PEDRA:- cama.

IRRADIADO:- nervoso, irritado.
INTERNET:-fazer um buraco na parede de uma cela para outra, a fim de passar celular ou droga em caso de blitz.

JACK:- pessoa que cometeu crime sexual.
JUMBO:- alimentos e coisas trazidas pelas visitas.

LUA:- o sol.
LIGAÇÃO:- alguém o chama. Não tem nada a ver com telefone.
LIGEIRO:- pessoa desenrolada, atenta.
LAGARTO (falam “largato”): esquema, bobo do outro, que faz serviço para o outro sem receber nada em troca.

MALUCO:- qualquer pessoa.
MUNDRUNGO:- sujo, que não toma banho.
MULA:- brincadeira, feito para “gozar” a pessoa, sem má intenção.
MENTE PILANTROSA:- quem planeja coisas ruins, ou gosta de enganar os outros.

NÓIA:- viciado em drogas e faz qualquer coisa para obtê-la, até mesmo prostituir-se. Por extensão, viciado em qualquer coisa: tevê, jogos etc.

PAZINHA: colher.
PH:- papel higiênico.
PAGAR:- fazer qualquer ato, como tomar ducha, distribuir a alimentação, o Sedex. Ex: “Vou pagar (tomar) uma ducha”.
PERRECO:- implicância, desavença.
PS- pedido de socorro médio ao guarda, quando a cela já está fechada: “Seu guarda, PS!”.
PÉ DE BREQUE:- pessoa sem qualidade.
PARSA:- parceiro, colega.
PARASITA:- que vive à custa de outro.
PICADILHA:- jeito de ser ou de se vestir.
PICO DA HORA:- lugar bonito para passeio ou diversão.

PAGAR FAROFA:- prometer e não cumprir.
PRAIA:- chão da cela. Ex: “Ele dorme na praia” (Ele dorme no chão da cela).

QUEBRAR AS PERNAS:- decepcionar alguém.

RATO DE MOCÓ:- ladrão que rouba os colegas de cela ou de outra cela.
REQUISIÇÃO:- quando o funcionário o chama.
REPIQUE:- repetir o prato, dar alimento a mais. Ex: “repique de bananas”.
RADINHO:- celular.
RIPAR:- matar.
RAMELÃO:- que faz tudo errado, desajeitado, desastrado.

SUMARIAR:- ir ao fórum depor ou acompanhar o próprio julgamento. Por extensão, qualquer reunião para se tratar de alguma coisa ocorrida: “vamos sumariar esse fato”.
SUBIU:- já está sendo levado de volta. A refeição, por exemplo.
SUBIDINHA:- lanche antes de dormir.

TÁ LIGADO?:- está prestando atenção?
TELA:- televisão.
TIRÍCIA:- sujeira, pó, imundície.

VENTANA:- janela.

ZÉ POVINHO:- que se implica com a vida do outro.

    O BARULHO

Os presos detestam o silêncio. O barulho é constante! Todos falam ao mesmo tempo, o rádio e a tevê são ouvidos ao mesmo tempo, as brincadeiras, tudo o que possa quebrar o silêncio. Há celas menos barulhentas, mas dificilmente se encontrará uma silenciosa.

Jesus amava o silêncio, e creio que ainda ama. Diariamente reservava uma boa parte do dia para o silêncio profundo, num local deserto.

Meu amigo diz que às vezes precisa tapar os ouvidos ou para poder rezar ou para não ouvir besteiras.

O silêncio nos perturba porque nos obriga a uma introspecção, em que deparamos com a nossa parte negativa e deprimente.

Ficar em silêncio, para muitos, é entrar na sala do próprio julgamento e assinar a própria condenação.

Mesmo nós, aqui de fora, muitas vezes usamos subterfúgios para nos enganarmos e não precisarmos encarar nossa consciência. O barulho e, muitas vezes, o próprio ativismo, nos levam a não nos lembrarmos de quem realmente somos.

É no silêncio que Deus nos fala e nós o ouvimos. É no silêncio que, à luz divina, captamos nossas misérias espirituais e nos vemos “nus” diante de Deus.

 AS CONVERSAS

Quase nada se aproveita das conversas da prisão. A maioria é idiota e indecente.

Bem diz Tiago, no capítulo 3, que a língua é um órgão pequeno, mas governa nossa vida, como o pequeno leme governa o navio.

É preciso muita discrição nas conversas da prisão. Qualquer palavra dúbia é mal interpretada e pode gerar desavenças e até morte. Em 2013 um preso matou o outro só porque não estava suportando mais ouvi-lo cantar músicas de sua Igreja (isso ocorreu em Sorocaba – SP).

Não se pode confiar nos colegas, pois a maioria não sabe guardar segredo. Claro que há várias exceções, mas não são muitas.

As celas próprias para denominações religiosas são mais tranquilas nesse assunto. Em algumas delas nem se vê tevê. Algumas acordam de madrugada para um momento de oração. Entretanto, em 2014 um dos moradores de uma dessas celas de uma determinada prisão cometeu suicídio. Ninguém sabe ou quer dizer o porquê dessa sua atitude. Veja que o ambiente é propício para coisas negativas!

As celas comuns, entretanto, são uma lástima para quem gosta de conversas mais úteis e produtivas!

O negativo (palavrões, conversas indecentes, sacrílegas contra Deus) atrai coisas negativas como mal-estar, brigas, discussões, clima pesado. Coisas positivas (conversas sadias, oração, ajuda mútua) atrai outras coisas positivas, como a  amizade, a paz, a concórdia, a alegria.


A oração intensa deixa positivo qualquer ambiente, pior que seja. Dizia um padre da minha infância (Pe. Antônio Maffei, IMC): “As pessoas que não rezam para dormir, deitam-se burros e levantam-se cavalos!”.

4- A VIDA DO DIA A DIA



É uma das principais características da prisão: tudo é partilhado com alguém  que chega da rua ou de outra unidade prisional sem nada ou quase nada.

Logo alguém fornece o sabão, outro o sabonete, outro um creme dental, outro um lençol, ou selo, ou envelope, ou toalha, ou o que for necessário, até que a unidade prisional forneça esse material para o recém-chegado.

Há vários casos de pessoas com problema sério de saúde receberem uma cama, quando só há lugar no chão (=na praia), e o ocupante dela ir para o chão em lugar do doente.

Os analfabetos ditam suas cartas a algum colega quando desejam comunicar-se com a família.

Enfim quando a necessidade é real, todos ajudam. Isso é a melhor coisa que se constata numa prisão. Alguns, inclusive,  não têm recurso algum aqui fora e não querem sair da prisão, pois ali não passam apertos, nem fome, nem solidão (pelo menos física, pois vivem com pelo menos dezoito na mesma cela). Chegam até a chorar de desespero quando chega a liberdade, pois não têm aonde ir nem sabem como conseguirão o sustento. São muito poucos, mas essas pessoas existem.

É preciso, porém, tomar cuidado quando alguém pede algo a outro colega. Nem sempre ajudar o outro com alguma coisa é, na prisão, uma caridade.

A caridade talvez se enquadre, na prisão, em ajudar o colega que está pedindo auxílio no sentido de orientá-lo a procurar os seus direitos, pois toda unidade prisional tem por obrigação fornecer pelo menos aos que não recebem visitas nem Sedex, o que for necessário para a sua subsistência.

O que acontece, muitas vezes, é que alguns fumam muito, por exemplo, e não lhes sobra dinheiro para nada no pecúlio.

Outros têm preguiça (ou outro motivo) de fazer a faxina no dia que lhes cabe e pagam para outros a fazerem, mas não têm condições de “financiar” a faxina. Geralmente se usa o maço de cigarros como “moeda” de compra ou de pagamento por “serviços prestados”, como por exemplo a faxina, lavagem de roupas. A faxina em dia de semana da cela custa um maço; em dia de véspera de visita, dois maços; a lavagem de roupas, varia de 4 a 6 peças por um maço. Muitos também vendem alguns produtos que receberam das visitas e não usam, como bolacha, desodorante, bermuda, doce etc.

Desse modo, o que está necessitado pode, no mínimo, fazer a faxina da cela. Se ele a fizer diariamente, vai receber o equivalente a 160 reais mensais. Se lavar roupa, essa quantia pode duplicar ou no mínimo, chegar a 200 reais.

Muitos se aproveitam muito dos outros em coisas pequenas, como pedir folha de papel (para escrever cartas ou fumar Arapiraca), acendedor de cigarros (na prisão é proibido chamar de “isqueiro”. Chamam de “Bic”. Pedir ao outro: “empreste o seu isqueiro” pode gerar briga”!). Também caneta, selo, envelope, cortador de unhas, cotonete, açúcar, adoçante, suco, sabão, desinfetante etc.

São coisas relativamente baratas. Um caderno de 60 folhas, por exemplo, é cobrado, na folha de compra mensal, cerca de R$ 1,60. Um cortador de unha, menos de um real. Por que ficar pedindo isso aos outros? Isso sem contar ainda com os que fumam o cigarro muito famoso de marca “Se me derem”.

A assistente social da unidade resolve ou encaminha os problemas dos que não têm recursos, mas são poucos os que sabem disso e é aí que entra a caridade ou a ajuda da pastoral carcerária: não em dar o peixe, mas ensinar a pescar, embora o rio esteja poluído!

  A ALIMENTAÇÃO

Além do que já dissemos acima, lembramos que há penitenciárias que fornecem uma boa alimentação, mas outras que deixam muito a desejar. Um pouco depende do gosto de cada um.

Na penitenciária em que meu amigo mora a alimentação (é proibido falar “comida”) é muito repetitiva: todos os dias, com raras exceções, vem picadão, no jantar. Alterna-se com salsicha e picadinho. No almoço vem frango (pedaço pequeníssimo), alternando-se com linguiça calabresa e ovo frito (uma vez por semana)e, no domingo, um bifinho (minúsculo e duro). Às vezes vem macarrão e batata. Todos os dias vem algum legume (que os presos detestam). Frutas, uma vez só por mês, e vem uma (UMA) banana para cada um. Salada, raramente (uma vez a cada dois meses ou mesmo três). Sobremesa doce, umas três ou quatro vezes POR ANO. Peixe também vem duas ou três vezes por ano.

De manhã cada preso tem o direito de tomar 250 ml de café e 250 ml de leite e um pãozinho. Só.

Meu amigo diz ironicamente que na prisão se fornece uma ótima alimentação para quem sofre do coração e para os diabéticos, pois não tem tempero, nem frituras, nem sal, nem açúcar, nem óleo ou gordura.

Nas saidinhas, um dos meus amigos diz que a alimentação de fora lhe faz mal, pois o organismo está acostumado com a “dieta” da prisão!

Seria interessante fazer uma pesquisa sobre os efeitos de tal alimentação no corpo e na mente dos presos!

O governador de São Paulo (Alkmin) disse, na mídia, que cada preso custa ao Estado mais de dois mil reais mensais. Uma alimentação pobre como essa não chega a 500 reais por mês!

JUMBO, SEDEX, COMPRAS

A compra mensal que o preso pode fazer traz alguns doces (chocolate, doce de leite, Paçoquita, balas), bolachas, produtos de limpeza e de higiene, cortador de unhas, espelho, banqueta, caderno, caneta etc.

No Sedex não entra várias coisas, como roupas e chinelos e nada que tenha recheio, assim como nos jumbos (coisas que a visita traz).

Roupas e calçados (tipos determinados de roupa e de calçados) podem entrar com a visita num determinado dia do mês, assim como material de trabalhos manuais, mas isso varia muito de prisão para prisão.

CRIATIVIDADE

Duvido que haja alguém mais criativo do que um preso para resolver problemas de acesso e adaptação. São muito criativos e resolvem inúmeras situações, sempre adaptadas, pois não se consegue as coisas necessárias para consertos , por exemplo.

Muitos presos fazem trabalhos manuais como barcos embutidos em garrafas e lâmpadas, peças de artesanato, e até crochê. Aliás, em muitas cadeias o crochê é uma mania, torna-se um tipo de hábito.

Um deles me contou que viu, certo dia, quatro ou cinco colegas em torno de uma revista. Ele imaginou que fosse “aquele” tipo de revista (que é, aliás, proibida), pois gesticulavam e comentavam Chegando perto, percebeu que se tratava de uma revista de crochê!

Só que os homens pegam na agulha de modo diferente da mulher. Colocam um cabo de madeira ou de plástico e crocheteiam como quem pega uma chave de fenda para tirar um parafuso. Os crochês dos homens são muito apreciados pelas mulheres, e eles vendem bem seus produtos.

Como eu já disse acima, há outros que trabalham em firmas que têm convênio com a penitenciária e mantêm oficinas de trabalho dentro da muralha. Ganham um salário líquido inferior ao salário mínimo. 

Há outros que estudam na escola interna, e outros, enfim, que só fazem o trabalho de faxina e lavagem de roupa para os colegas. Esses também fazem artesanato nas horas livres. Aliás muitos que trabalham nas firmas também fazem algum tipo de artesanato nas horas vagas. É difícil presos que não fazem nada.

Já houve um tempo em que os presos faziam um forninho esquentado à lâmpada, revestido de papel alumínio. É um ótimo forno, e a eletricidade que gasta é a de uma lâmpada. Ótimo para manter quente a alimentação, café, leite... A diretoria foi trocada e a nova acabou com essa “regalia”. O preso não tem direito de tomar nem leite nem café quentes. Tudo frio. Muitos fazem ebulidores usando resistência de chuveiro ou mesmo colocando os fios em cabos de arame e colocando sal na água. Mas isso é proibido e severamente punido.

Alguns remédios são adaptados. Para curar rachadura de calcanhares, por exemplo, não há melhor pomada do que a que é usada para curar hemorroidas. Cura as rachaduras em dois dias no máximo. Para curar frieiras e coisas semelhantes, se usa o Pinho Sol. Certos problemas de pele se curam com o hidratante “Monange”, vendido na compra. Há inclusive um dos funcionários que adotou esse creme para curar uma doença incurável (mas não contagiosa) de pele, chamada “hiperqueratose palmo plantar”. E deu certo! Um dos presos tem esse problema e “receitou” o creme ao funcionário, que resolveu experimentar e deu certo!

Os percevejos (há celas em que há bastante, por terem as beliches feitas de madeira já velhas) são matados com Pinho Sol puro. Mas só ajeitam um pouco a situação. Só com a dedetização é possível erradica-los. Eu aproveitei a situação e escrevi uma poesia dedicada ao percevejo (numa das celas, dois presos que não puderam sair na saidinha encheram um vidro com 320 percevejos! Levaram o vidro ao diretor, e este mandou dedetizar a cela. Os percevejos diminuíram).
Eis a poesia:

O PERCEVEJO

Aquele percevejo,
pequenino e nojento,
correu, desesperado,
quando me viu acordado.

Entrou numa frestinha,
escapando, o pestinha,
de meu dedo picado.

Coraçãozinho disparado,
juntou duas das patinhas,
e a Deus agradeceu,
em poucas linhas,
de não ter sido esmagado.

Se algo houvesse
por Deus não amado,
a bíblia esclarece,

Ele não o teria criado!